domingo, 21 de agosto de 2011

Cuide bem da educação de seus filhos.


Mães superprotetoras podem criar canalhas como Léo, de "Insensato Coração"

HELOÍSA NORONHA
Colaboração para o UOL
  • Cena de Léo, vivido por Gabriel Braga Nunes, na novela "Insensato Coração", da Globo
    Cena de Léo, vivido por Gabriel Braga Nunes, na novela "Insensato Coração", da Globo
    Veja atitudes que trazem maus resultados

    • Divulga��o

    Preferência em família = espírito competitivo deturpado
    Desde que Léo e Pedro (Eriberto Leão) eram pequenos, Wanda sempre pendeu para o lado do primeiro e fez questão de lapidar as características do filho que mais gostava (e com as quais mais se identificava), como a ambição. Pedro, como era de se esperar, acabou se aproximando do pai, Raul (Antônio Fagundes). Porém, o fato de Wanda sempre enaltecer as qualidades do filho predileto (mesmo quando não havia razão para tal) fez com que Léo se tornasse excessivamente competitivo, com sede de ganhar e de sempre levar vantagem –a preferência de Wanda o levou, tempo todo, a tentar superar Pedro em tudo, ainda mais que o afastou de Raul. "Esse tipo de atitude também é prejudicial ao restante da família, pois não é raro que a mãe desautorize o pai, caso considere uma bronca ou um castigo excessivos para o seu favorito", comenta a psicóloga Suzy Camacho, de São Paulo, autora do livro "Guia Prático dos Pais" (Paulinas). O casal acaba dividido, com pai e mãe tomando partido cada um de um filho, criando uma guerra entre os irmãos.
    Falta de ética  = amoralidade
    Segundo a psicóloga Sônia Fuentes, a partir do momento em que a criança incorpora regras e começa a se adaptar ao mundo, vai tendo que acatar princípios morais para sobreviver. "Para viver em sociedade, precisamos de regras e valores morais, caso contrário, a vida em grupo se torna até perigosa", diz. Léo, porém, já nasceu com traços de psicopatia. “Estudos recentes de neurociências observaram que a área das emoções, como a empatia, é menos ativada nos cérebros de pessoas com transtornos emocionais, como os psicopatas”, diz a psicóloga Suzy Camacho. Se a criança cresce em um ambiente amoroso, feliz, com pais que investem em um relacionamento harmônico, a tendência pode ser sobrepujada. "O ambiente faz toda a diferença",  afirma Suzy. Wanda, com seu método peculiar e equivocado de disciplina e educação, ajudou Léo a colocar em prática suas características malignas. Na novela, a personagem Wanda nunca tentou transmitir ao filho valores como a generosidade ou honestidade. Ao contrário: ensinou Léo a ganhar a vida se aproximando das pessoas que lhe trouxessem algum benefício.
    Supervalorização das aparências = perfil interesseiro e egoísta
    De acordo com a psicóloga Suzy Camacho, até os sete anos de idade a criança aprende tudo pelo aspecto concreto, ou seja, mais vale o que ela vê do que o que ela ouve. Dessa forma, se a mãe tem uma forte ligação com a imagem, por exemplo, há uma tendência de ela também desenvolver isso. Em “Insensato Coração”, a trajetória de Wanda a coloca como uma mulher obcecada pelas aparências. Léo aprendeu a lição com a mãe: cresceu um sujeito interesseiro e egocêntrico. "Torna-se egoísta aquele que pensa que o mundo gira em torno de si, e se esquece que existem outras pessoas que também necessitam de bens materiais, mas, principalmente, de afeto, carinho e ajuda. Os pais devem incentivar os filhos sempre a compartilhar brinquedos ou roupas, por exemplo. Entender que algumas coisas podem ser doadas, pois ajudarão outras pessoas", afirma Sônia Fuentes
  • Erros acobertados = ausência de limites
    Passar a mão na cabeça de um filho que comete um erro é a pior coisa que uma mãe pode fazer, mesmo que ela acredite piamente que está poupando a criança de algum sofrimento. Wanda nunca puniu ou castigou Léo –e não estamos falando, aqui, de represálias físicas ou radicais. Ela nunca ensinou a ele o peso da consequência. Assim, cada delito foi varrido para baixo do tapete e escondido do pai, que nunca teve a chance de tomar uma medida adequada. "Quando a mãe acoberta um erro do filho, ele acaba se tornando reincidente. Na vida adulta, torna-se uma pessoa sem limites, capaz de tudo. E com muita autoconfiança, pois acredita que sempre vai dar um jeitinho em qualquer situação", afirma a psicóloga Suzy Camacho.
Supervalorização do filho = mimo e soberba
Todo mundo que assiste "Insensato Coração" sabe que Léo (Gabriel Braga Nunes) é um tremendo canalha. No entanto, antes de julgar o vilão da novela global das 21h, é preciso prestar muita atenção em outra personagem da história: Wanda (Natália do Valle). Quem acompanha atentamente a trama sabe o quanto ela, com suas atitudes de mãe superprotetora, é corresponsável pelo comportamento do filho. Assim como Wanda, muitas mães pecam pelo excesso, sem perceber que o amor devotado vai transformando a criança em um adulto egoísta, competitivo e até amoral. O UOL Comportamento conversou com duas especialistas para analisar os erros cometidos por Wanda –e como eles repercutiram de forma extremamente negativa na personalidade de Léo. Situações da ficção que podem muito bem arruinar famílias na vida real.
Wanda sempre enxergou Léo com lentes cor-de-rosa, como se fosse perfeito. Cada qualidade sua –beleza e inteligência, por exemplo– era destacada ainda mais, o que fez com que Léo acreditasse ser superior às outras pessoas. Já os defeitos –falta de compaixão ou propensão a mentir– eram minimizados, o que sempre provocou conflitos com o pai e o irmão na trama. "Ela se esforçou a vida inteira para que o filho transmitisse outra imagem, a que ela idealizava", diz a psicóloga Suzy Camacho. Sob o aval da mãe, Léo se tornou um monstro de autoconfiança e soberba. Para Sônia Fuentes, doutoranda em Psicologia Clínica e mestre em Gerontologia pela Pontifícia Universitária Católica de São Paulo (PUC-SP), não é raro que um filho mimado se transforme em um adulto egoísta –e, tal qual um bebê, é imediatista e quer seus desejos atendidos na hora.  "A infância não pode significar receber sempre tudo que se quer, e sem esforço algum, como um bebê que, ao chorar, geralmente recebe não só o leite, mas o afeto junto. Se a mãe continua com a dinâmica de dar sempre tudo pronto e ignora a possibilidade do crescimento do filho, ela acaba prejudicando-o. A criança que recebe tudo prontamente vai querer sempre receber", explica Sonia. Segundo a especialista, ao longo da infância, a criança precisa aprender a experimentar frustrações para alcançar um dia a independência. Aprender que o mundo não gira ao seu redor e que a vida nem sempre vai lhe dar tudo aquilo que desejar. Se não internaliza isso, pode virar um adulto tirano.


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